sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A beleza do ceticismo

"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"
Douglas Adams


O planeta, a natureza, o ser humano, tudo isso evoluindo no mesmo compasso, na mais bela harmonia, século após século é simplesmente extraordinário. O homem não é especial, nem precisa crer em alguma entidade superior que o faça sentir dessa maneira, como se fosse a raça dominante que pode mandar no mundo, muito distante e acima dos outros animais. Não consigo enxergar nenhum brilho nisso. A beleza está em compreender que tudo se entrelaça, que somos apenas uma peça no quebra cabeça. Todas as espécies, organismos, minerais e cada molécula que existe no mundo compartilham uma relação de dependência que, quando em equilíbrio, funciona numa espetacular sincronia, em caminho ao aperfeiçoamento, a evolução, em todos os sentidos. O diferencial é que, de acordo com a situação da Terra nessa última parcela de milênios, o ser humano demonstrou se a espécie que melhor adaptável, desenvolvendo mecanismos excepcionais, sendo o mais decisivo deles a mente racional. E é isso, só isso. Vale relembrar que essa parcela de tempo a que me referi é praticamente insignificante ao levar em conta o período de existência do planeta. Podemos enumerar situações passadas ou possíveis em que a vida humana é impossível, como as eras de congelamento que a Terra enfrenta de tempos em tempos. Até que então, há mais ou menos dois insignificantes milênios, cria-se uma doutrina que em tese detona tudo isso e que passa a agir com ambição de converter o planeta inteiro sob a sua crença. Mas para quê crer que Adão foi feito de barro e ganhou vida através de um sopro mágico? Isso perde completamente o sentido ao ser explicado de maneira profunda e coerente, através da ciência. Por fim, ao contrário do que muitos crentes defendem, crer na verdade e na evidência não tira o a beleza de nada, apenas a mágica.

O complexo de superioridade humano é um grande entrave para a harmonia planetária, o homem chegou ao ponto de encarar o mundo como algo que está em suas mãos, que pode manipular e modificar segundo suas ambições, extraindo dele tudo o que desejar. Mas não é bem assim que funciona, essa maneira de agir e pensar não é sustentável. Nesse aspecto, o ser humano tem que voltar ao pensamento primitivo, em que se enquadrava ao meio como parte integrante de algo maior, ao qual pode interferir, desde que não comprometa o funcionamento geral. Hoje, falta essa compreensão do mundo como um todo, das modificações naturais que ele desenvolve e também das que são negativamente causadas pela ação humana. O atual modo de encarar a vida na Terra remete a filosofia do antopocentrismo que, embora muitissímo melhor que seu antecessor, o teocentrismo, se mostra drasticamente antiquada aos padrões de conhecimento que o homem moderno atingiu.

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